Machado por seus contemporâneos - O autor e a obra



ARARIPE JÚNIOR (1848-1911)



Sobre Machado de Assis, de Sílvio Romero


O último trabalho de tomo, dado aos prelos por Sílvio Romero, foi um estudo sobre Machado de Assis.

Um fenômeno curioso é o que se nota nesse estudo. Sílvio Romero, a cada instante, declara que mudou de temperamento, amainou as velas e achase predisposto a uma grande complacência. Machado de Assis não lhe parece ser o homem impossível que ele atacava em 1872 e 1880. Tem qualidades e representa um bom esforço literário. Todas estas declarações, porém, são ilusórias; e o crítico, que, segundo me parece, não quis concentrar o seu espírito na obra, já bastante extensa, do autor de Brás Cubas, faz ressurgir suas antigas antipatias, recorrendo ao seu processo predileto de esbordoar os outros com essa clava de Hércules chamada Tobias Barreto.

Com justa razão, geralmente se achou extravagante que o crítico escolhesse o falecido lente de criminologia do Recife para confrontar com o nosso, podese dizer, único humorista. Se ainda o fizesse para mostrar o contraste dessas duas naturezas, vá; mas não se deu isto: o autor da História da Literatura Brasileira pretendeu, antes de tudo, mostrar que Tobias era um humorista valente e incomparável, diante das deliqüescências de Machado de Assis.

Não sei se deva dizer que o que ali se expende, a respeito do autor de Dias e Noites, causou a impressão de um corpo estranho metido à força numa garrafa de azeite. O livro, na sua maior parte, repete o que Sílvio Romero já disse vinte vezes sobre o talento indisputável do grande sergipano; apenas acrescenta algumas novas considerações relativas ao seu

1 Fragmento de “Sílvio Romero Polemista”. In: ARARIPE JÚNIOR, Tristão de Alencar.

Araripe Júnior: teoria, crítica e história. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. Rio de

Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1978.

temperamento alegre. Tobias, porém, podia ser tudo, menos um humorista; e nem ao crítico apadrinham as opiniões de Schérer e Taine, quando definem esse gênero de literatura. 

Que pode haver de comum entre esse excentricismo ou humorismo anglosaxônio e a alegria ruidosa de Tobias? Conheci o ilustre morto nos seus melhores tempos; e posso garantir, pelo que observei e tenho lido desse autor, que nunca, sobre a Terra, pisou homem de alma menos tristonha. Tobias era um boêmio incorrigível, genial, talvez, para cujo temperamento maligno nada havia superior, em deleite, ao exercício do espírito de tropa. Nas questões mais intricadas e sérias, raro era que ele não desse largas ao seu gênio e, de súbito, não irrompesse em verdadeiras molecagens para fazer encavacar os seus antagonistas. Ainda tenho presente uma dessas troças. Examinavam um estudante em direito eclesiástico, e Tobias, no impedimento de um dos catedráticos, fazia parte da mesaexaminadora. Perguntara o lente da cadeira, ao examinando, o que era cardeal. "Cardeal", disse o rapaz, "é uma dignidade da igreja que fica metida entre o Papa e o bispo". Como era natural, o examinador irritouse com a resposta e começou a invectivar a ignorância do estudante. Tobias ouvira tudo isto sorrindo e puxando um bigode hirsuto. De súbito, brilharamlhe os olhos! Dirigiuse, então, ao colega, e, interrompendoo: "Perdão; agora, eu..." E virouse para o argüido: "Diga, Sr. estudante, que o seu professor não lhe quer revelar a verdade verdadeira. Respondeu bem. Cardeal é uma espécie de intruso na igreja, que lambe os pés do Papa, enquanto não lhe chega a vez de ser lambido, e que olha de esguelha para o bispo, cuja autoridade não exerce, por ser eunuco, nem respeita, por ser safado. E há outras coisas mais que essa dignidade acumula; mas que só no compêndio de Bocácio o senhor terá ocasião de aprender, logo que se liberte desse direito espoliástico."


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